
Um diretor financeiro hospitalar em São Paulo envia um lote de faturas médicas para uma operadora de saúde. Os atendimentos foram realizados no mês anterior. A documentação está completa. A codificação parece correta. Ele estima receber em 45 dias.
Noventa dias depois, nada foi pago.
Ao entrar em contato com a operadora, recebe a resposta: a conta foi rejeitada por “documentação incompleta” — um código de procedimento não corresponde ao formato do sistema da operadora. O hospital precisa reenviar. O ciclo recomeça.
Quando o pagamento finalmente é realizado, entre 120 e 180 dias já se passaram. Nesse período, o hospital já pagou salários, fornecedores médicos e despesas operacionais — enquanto aguarda o reembolso de quem, em teoria, deveria pagar logo após o atendimento.
Essa não é uma exceção.
É a realidade operacional padrão em grande parte da América Latina.
Muitos profissionais de finanças em saúde acreditam que os atrasos acontecem porque as operadoras são lentas ou deliberadamente postergam pagamentos. Embora existam ineficiências do lado dos pagadores, o problema central é estrutural:
O ecossistema de saúde na América Latina funciona sobre sistemas desconectados e incompatíveis, que nunca foram projetados para se comunicar entre si.
Veja o que acontece quando um hospital envia uma conta:
O prontuário eletrônico (EHR) gera os dados de cobrança em um formato proprietário. Muitas vezes é um sistema de 20 ou 30 anos, desenvolvido por um fornecedor local — estável e integrado aos processos internos, mas isolado.
Para enviar a conta à operadora, a equipe financeira exporta os dados manualmente — frequentemente para planilhas, PDFs ou formulários. Não há fluxo direto de dados. Cada envio é uma tradução, suscetível a erro.
Do lado da operadora, as contas chegam em formatos inconsistentes. Quando os dados não correspondem ao padrão esperado, são sinalizados como incompletos ou rejeitados — não porque a informação médica esteja errada, mas porque o formato é incompatível.
Essa fricção invisível é o que transforma ciclos de pagamento de dias em meses.
A maioria dos hospitais na América Latina utiliza sistemas antigos de prontuário eletrônico. Essas plataformas foram desenvolvidas antes da interoperabilidade ser prioridade.
Trocar de sistema não é simples. O EHR é infraestrutura crítica. Substituí-lo implica treinar equipes, migrar anos de dados e assumir riscos operacionais significativos.
O resultado é um ecossistema fragmentado, onde cada transação exige intervenção manual, reconciliação e correção.
As consequências não são teóricas — afetam diretamente o balanço dos hospitais.
Um hospital que presta US$ 10 milhões em serviços por mês espera receber em 30 a 60 dias. Se o ciclo se estende para 120 dias, a instituição está financiando quatro meses de operação com capital próprio.
O Banco Mundial estima que 15% a 20% dos gastos em saúde na América Latina se perdem devido a ineficiências, fraudes e desperdícios administrativos — o equivalente a dezenas de bilhões de dólares por ano.
Para prestadores menores, esses atrasos podem ser críticos. Alguns recorrem à antecipação de recebíveis com intermediários, pagando entre 3% e 8% do valor da fatura.
A solução não é apenas acelerar o envio de contas ou pressionar operadoras a pagar mais rápido. Isso trata o sintoma, não a causa.
O problema estrutural é a ausência de uma camada de infraestrutura que permita:
Nos Estados Unidos, empresas como Waystar e Change Healthcare se tornaram negócios bilionários não substituindo sistemas hospitalares, mas conectando-os.
A América Latina está chegando a esse mesmo ponto de inflexão.
Os atrasos não são resultado de má vontade das operadoras nem de ineficiência hospitalar isolada.
São consequência da fragmentação da infraestrutura.
Quando essa camada de conexão existe, ciclos de 90 ou 120 dias deixam de ser a norma — não porque alguém trabalhou mais rápido, mas porque o sistema deixa de exigir reconciliação manual a cada etapa.