
Uma paciente chega a um hospital privado em São Paulo para um procedimento agendado. Ela já foi atendida nessa unidade antes — seus registros existem no HIS do hospital. A operadora pré-autorizou o procedimento. O cardiologista dela em outra clínica enviou um encaminhamento na semana passada. Mas quando a equipe de admissões verifica o sistema do hospital, nenhuma dessas informações externas está lá. O encaminhamento chegou por e-mail. A pré-autorização está num PDF na área de trabalho de alguém. As notas do cardiologista estão em um sistema diferente que não se conecta ao deste hospital.
A equipe de admissões passa 40 minutos ao telefone e por e-mail para reunir as informações necessárias para prosseguir. Essa é a realidade operacional cotidiana em toda a saúde latino-americana. Sistemas existem. A digitalização aconteceu. Mas a integração não.
Entender por que os sistemas de saúde latino-americanos não se comunicam exige entender como foram construídos. Ao contrário do mercado americano — onde mandatos de uso significativo, reforma legal e obrigações de compartilhamento de dados criaram pressão regulatória em direção à interoperabilidade — a digitalização da saúde na América Latina aconteceu organicamente, país a país, instituição a instituição, fornecedor a fornecedor.
O resultado é um cenário de sistemas profundamente heterogêneos e isolados: hospitais com plataformas HIS dos anos 1990 e início dos 2000 que são anteriores às arquiteturas modernas de API; sistemas de prontuário eletrônico construídos por fornecedores locais para requisitos regulatórios específicos de cada país, não para troca de dados entre sistemas; plataformas de operadoras construídas com modelos de dados proprietários sem conectividade externa.
Uma das expressões mais concretas da falha de interoperabilidade é a proliferação de sistemas de codificação médica incompatíveis. Um procedimento realizado em um hospital colombiano pode ser codificado sob CUPS. O mesmo procedimento em um hospital brasileiro usa TUSS ou CBHPM. Uma operadora multinacional que opera em ambos os países pode usar ICD-10 para códigos de diagnóstico, mas manter mapeamentos proprietários de códigos de procedimentos para cada país. Uma cobrança enviada com o código errado — mesmo que o conteúdo clínico seja idêntico — será glosada.
Ministérios da saúde em toda a região investiram em iniciativas de interoperabilidade. Os padrões HL7 FHIR foram adotados em frameworks de política. Projetos piloto demonstraram viabilidade técnica. Mas a interoperabilidade genuína, operando em escala, continua rara. A razão é que a interoperabilidade não é um problema tecnológico — é um problema de modelo de negócios e incentivos. Fornecedores com grandes bases instaladas têm incentivos econômicos para manter o lock-in proprietário.
O custo dos sistemas desconectados não é abstrato. Para os hospitais, a fragmentação significa re-entrada manual de dados entre sistemas — criando custos de mão de obra, taxas de erro e atrasos. Alguns estudos sugerem que o desperdício administrativo por fragmentação na saúde na América Latina consome 20–30% do gasto administrativo total em saúde — representando dezenas de bilhões de dólares anualmente na região.
A solução para a fragmentação não é um único EHR universal nem um padrão de integração mandatado pelo governo. É uma camada de infraestrutura que conecta os sistemas existentes sem exigir que sejam substituídos — traduzindo entre formatos proprietários, padronizando para sistemas de códigos globais, e permitindo que os dados fluam de forma segura e em tempo real entre os atores que precisam deles.